
A quarta-feira prometia. A cidade se pintou de azul. Os comentários nos bares eram sempre os mesmos: A discussão sobre o confronto entre Cruzeiro x Boca Juniors. Pela manhã, passei na loja celeste e comprar duas camisas, uma para mim, e outra para uma amiga que mora no Rio Grande do Sul. Parecia que tudo conspirava para o nosso lado.
A ansiedade não me deixava raciocinar. Em meio ao trabalho e a difícil missão de fechar um jornal em menos de três horas, não tinha outro pensamento senão o jogo que se aproximava. Meus amigos saindo para o Mineirão e eu ali, preso, sem ter esperanças de sair tão cedo, pegar meu primo e começar a gritar pelas ruas da cidade. Às 16h30min a esperança apareceu: Meu chefe, com o qual não estava muito bem, me libera para casa e fala que fecha o jornal. Não, nada poderia dar errado.
Na ida para o estádio, trânsito intenso. Mesmo com o desespero de chegar o estádio via milhares de cruzeirenses brigando por cada espaço em meio às avenidas lotadas de Belo Horizonte. Devo ter tomado umas 20 multas de tantos canteiros que passei e avançar sinais.
Chegando no estádio vi que a festa estava pronta. O sorriso estava estampado no rosto de cada um dos cruzeirenses que via pela rua. Me perguntava se eles não temiam o forte adversário que vinha pela frente. Mas, como poderia pensar isso deles, já que eu mesmo não temia, apenas sonhava com o Japão no final do ano?
Subo as arquibancadas enquanto minha bandeira agitava. O coração batia mais forte. Já tinha enfrentado grandes emoções, mas, ali achava que ia ser uma partida épica, para o Cruzeiro. A ansiedade que antes me dominava pela esperança de chegar cedo ao Mineirão agora se resumia na vontade da partida não começar. E como demorou...
O juiz soou o apito, o Cruzeiro não prestou atenção. A bola corria de um lado para o outro, às vezes até ia para frente, mas logo voltava, e corria de um lado para o outro. Assim foi se repetindo e a ansiedade transformou-se em angústia. A voz já rouca tentava empurrar o time ao ritmo do “olê, olê, olê, olê”. Perdi-a totalmente logo após. Em um contra ataque, Palácios, aquele que o Marcinho dizia no banco de reservas que não sabia chutar, mas eu o achava um craque, acertou o ângulo. Foi difícil vê-lo correndo quase que na minha reta, na bandeirinha de escanteio, ameaçando provocar a torcida celeste, mas preferiu vibrar pelo seu belo gol.
Vi mais um pouco do primeiro tempo, mas resolvi descer e comprar algo para comer. De repente escuto um silêncio e algumas vaias na arquibancada. Foi uma das piores sensações que já senti. De um lado um torcedor tava o tropeiro no chão, do outro, descendo três chorando de raiva.
Voltei para a arquibancada—ainda não me acostumei a chamá-la de cadeira lateral—. Via um monte de torcedores ainda falando, “Vamos fazer quatro, você vai ver”, com o “olê, olê, olê, olê” de fundo. Se isso não é torcida apaixonada, o que será? Colocar quarenta mil com ingresso à um real?
Volta o segundo tempo e a esperança tenta ressurgir. O Wagner acerta um voleio e diminui o placar, mas não consigo gritar mais, minha voz já estava quase acabando. Os minutos passam. No início do jogo o relógio era meu maior inimigo, parecia que estava com preguiça de girar os ponteiros. Continuou sendo, mas, desta vez, resolveu caprichar na corrida.
A voz que antes era escassa foi apagada de vez pelas oportunidades perdidas e a esperança foi embora, junto com o sonho do Mundial. Ficou a certeza de que a campanha não foi perdida. Enfrentamos um time infinitamente superior ao nosso, pela experiência.
Agora é a hora de boa parte da torcida vaiar, começar a caça às bruxas. Eu, mesmo apontando algumas coisas que não concordo, prefiro ter a certeza de que nada foi em vão. Era um sonho possível. Nossa equipe não é ruim, como muitos dizem, apenas enfrentamos um time superior. Se saíssemos paras as Frangas, com certeza o “pau iria quebrar”, pois é um time desqualificado, pequeno.
Muitas cacarejantes irão me chamar de iludido pelo último comentário. Tenham suas opiniões, mas pensem melhor sobre o estado do seu atual time.
Caímos de pé, contra o melhor time da América do Sul!
Saluti Celesti